domingo, 27 de julho de 2008

Ateu

    Achei um louva-a-deus no jardim de casa. Foi inconfundível reconhecê-lo. Foi inevitável tê-lo nas mãos. Talvez represente o louva-a-deus o meu maior fascínio no mundo dos insetos, meu elo com os futuros guardiães da Terra. Era um pequeno ser verde. Um corpo totalmente mimetizado, uma obra-prima tingida magicamente pelas mãos pacientes da evolução. Não, não era uma folha! Poderia ser, mas seus olhos brilhavam como orvalho no topo da pequena cabeça triangular, e cada olho, humanamente, parecia carregar consigo uma espécie de pupila, direcionada para o nada, parecendo perceber tudo.
    Mas não por isso era um louva-a-deus. Era um louva-a-deus porque carregava nos seus braços uma prece, uma prece dissimulada, traiçoeiramente dissimulada. Uma prece fatal. Uma reza a deus nenhum, mas para si próprio, para garantir em frações de milésimos de segundos a sua existência. Suas mãos não traziam flores, mas espinhos, afiados e moldados, mais uma vez pelas mãos humildes da evolução. Suas asas traziam falsos olhos. Olhos amavelmente inofensivos. Inocentemente malignos. Mas ainda era um louva-a-deus. O mito não morreria tão cedo assim. E por ser tanto, carregava consigo um estigma. Que tão imperdoável pecado cometera, para suplicar por tanto perdão? Em que tão insignificante coração repousaria tanta fé ?
    Pensando na sua verdade por trás daquela prece, resolvi dar-lhe um alimento. Um gafanhoto. Um infeliz gafanhoto. Tão infeliz que não seria jamais um louva-a-deus... A guerra das necessidades ganhou seu espaço naquele instante. E num momento quase imperceptível o louvor-ateu justificou suas causas. E Deus, de onde estivesse, perdoou aquele instante. Talvez enxergasse naqueles pequenos olhos tamanha inocência naquele ato. Talvez enxergasse naquele ser a sua imagem e perfeição, seu melhor ator no teatro da vida. Sem máscaras, sem drama, sem enredo algum.



Para preservar a magia

Vamos tentar ouvir o som do presente instante
Vamos esquecer a cor do diamante
Vamos lembrar que os olhos brilham sem explicação
Porque há explicações que destroem o sentido mais puro
Porque há valores escondidos na janela d’alma
E no último segundo da despedida o adeus perde o rumo,
E no último instante, o coração deixa uma porta entreaberta
para quem quiser entrar escondido, sem avisar
Vamos sentir o eco da pulsação
Rimar o tom da chuva com o blues do coração
Vamos imaginar um mundo no ínfimo grão da areia
Eis ali o entender da plena existência, sem erros nem acertos
Vamos fazer inédito o quotidiano retilíneo,
semear cores novas no que desbotou pelo desgaste dos segundos vãos
Sentir a vibração da nave-mãe a nos levar no tempo-espaço,
Sem medir segundos ou quilômetros
Porque há razões que não precisam ser lembradas
Ou faltará o ar para alimentar a magia
Vamos olhar de perto o pequeno verme a navegar no chão,
feliz por não ter que racionalizar sua existência,
Descobrir no seu íntimo a essência única do ser,
sem ideogramas, cronometragem, sem analogias, sem modismos,
sem precisar sonhar com o que não terá um dia
Vamos ouvir calados a sinfonia dos ventos nos vitrais
Numa catedral, numa fábrica, num apartamento escuro, no meio dos arranha-céus.
Ou faltará a magia pra alimentar os ventos,
Ou faltarão os ventos para mover o moinho dos nossos sonhos.

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