quarta-feira, 30 de julho de 2008

Uma gota da infância que o tempo esqueceu de apagar


    Nessa vida há coisas que não podem ser lembradas e outras que, apesar de não terem o menor valor, não se consegue fazê-las esquecer. Remonto a 23 anos atrás, e retorno a minha infância. Salvador, Bahia, ruas de Ondina, Edf. Suécia, Av. Adhemar de Barros, Escola A Aldeia dos Curumins. Esse é o cenário.
    Mil vidas passaram entre 1982 e hoje, mil voltas essa vida deu, e hoje, sozinho num apartamento, numa outra cidade, numa vida há mil por hora e ao mesmo tempo tão ausente de si mesma, me vem uma lembrança de um personagem que atravessou o tempo surreal das memórias da infância.
    Samuel, conhecido apenas como Samuca. Um maluco, ou talvez, apenas um silencioso nômade do vento, perambulando pela via dupla que leva e traz a vida urbana entre a Av. Anita Garibaldi e a Av. Oceânica. Talvez eu morra sem saber quem foi Adhemar de Barros, mas por pouco nasci sabendo quem é Samuca.
    Passei alguns anos, talvez apenas um ano, não sei mais, presenciando Samuca andando sem pressa pelas ruas de Ondina, quase sempre perto de uma padaria, sempre com uma mesma roupa, cor de roupa de maluco de rua. Não lembro se ele tem voz, se ele dizia o que sentia ou o que pensava. Mas lembro que nós o temíamos tanto quanto gostávamos de encontrá-lo no caminho para a escola e chamá-lo de Samuca. Era inofensivo…talvez malucos nocivos não ganhassem apelidos, ou sequer saberia-se o seu nome. Mas em toda minha vida conheci poucos “Samuel” e apenas um eu chamava por “Samuca”. Ironicamente, mas não por acaso, um personagem tão distante da possibilidade de comunicação acabou representando a lembrança mais forte desse nome.
    O tempo não parou, e levou a vida junto. Mudei de cidade… Camaçari, Vitória da Conquista, Ilhéus. Cresci, envelheci, desaprendi a sonhar os antigos sonhos de outrora… e lá se vão, por curvas hoje tortuosas em saudade e solidão, 23 anos…
    Todas as pessoas que vi em 1982, exceto os familiares, já não encontrei novamente. Não, não todas. Como se o tempo espelhasse o passado, como se a vida fosse sempre um círculo, o carrossel da nossa infância, reencontro, agora velho e cansado, com outras mesmas roupas coloridas pela velhice imunda das ruas, o maluco dos tempos de criança. Estranha sensação a de perceber que alguém tão longe da minha rotina, tão distante nesse largo hiato temporal que nos separa, é reconhecido, mesmo por trás das rugas, de uma barba rala e desconcertada, mesmo diante da pressa de quem não poderia sequer falar, mais em tom de despedida do que de reencontro: Oi, Samuca, tudo bem?!
    Estranho imaginar que depois de tanto tempo poderia reencontrar uma mesma pessoa no mesmo lugar de sempre, e perceber que esta é a única alma comum ao meus tempos de infância na singularidade daquele local, minha única testemunha de que um dia eu fui criança cruzando aqueles caminhos. Ao rever aquele personagem, foi instintiva e nostálgica a reação de parar por alguns instantes, e ver o mundo dando uma volta, numa constatação de um reencontro que só poderia ser unilateral e totalmente silencioso. Pois, para aquele senhor de olhar cansado e compenetrado no vazio do espaço, que para mim era um personagem vivo da minha história, eu nada mais era do que mais uma alma vagando sem nome, sem função e sem sentido, como tantos outros loucos efêmeros que vagam anônimos nas ruas desse país.

2 comentários:

Luedy, B. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luedy, B. disse...

Olá Sávio! Deparei-me com seu texto ao buscar informações sobre a escola Aldeia dos Curumins, local no qual estudei alguns anos de minha infância. Encontrei pouca informação sobre a escola e as pessoas. Assim como você, não me lembro de nomes dos "amiguinhos" dessa época, não obstante a memória do velho Samuca sempre esteve bastante presente em minha vida, pois morei em Ondina e estudei minha vida toda naquele bairro. Para não dizer que não me lembro de todos da Aldeia dos Curumins, lembro de nomes como Cecília, Carla e uma garota com necessidades especiais chamada Patrícia (...) todos estes foram meus colegas de sala, já o Samuca, foi meu interlocutor mudo que por anos acompanhei observando de longe e, por vezes, quando saia com meu pai, ele parava para conversar com Samuca e abastecê-lo com cigarros, que ainda hoje cata pontas de cigarro pela Ademar de Barros. Tenha certeza que o Samuca está presente não somente na sua memória, mas na muitas pessoas que vivem nessa cidade.